Por anos tiveram noites que fiquei acordado até tarde tentando resolver um problema que nem era bem meu. Era de colegas. Eu já tinha visto aquelas pessoas cansadas demais pra conseguir desligar e ir dormir como se não fosse comigo.
Isso não tem nada a ver com produtividade. Não tem métrica pra isso.
Já vi o oposto acontecer também, de perto. Empresa que trocou gente por processo achando que ia ganhar eficiência, e no fim ninguém mais sabia por que a marca dizia o que dizia. Os números continuaram bonitos por um tempo. Mas alguma coisa foi embora, e demorou meses pra alguém perceber que tinha ido. Isso também não tem métrica. Só aparece depois, quando já custou caro.
A inteligência artificial mudou muita coisa, e mudou rápido. Ela escreve, organiza, sugere, executa em segundos o que levava semanas. Eu uso, no dia a dia, e não vou fingir que não uso. Mas tem uma coisa que ela não carrega, e acho que nunca vai carregar: ela não tem nada em jogo. Ela não perde o sono. Não fica em silêncio numa sala esperando alguém terminar de pensar ou falar, para não estragar o momento. Não lembra que o filho de um cliente estava doente na semana passada, e pergunta como ele está antes de falar de trabalho. É a pergunta que mais importa, se o outro está bem de verdade.
O nome da empresa carrega isso, mesmo que ninguém tenha me perguntado ainda
OMAISO é O + MAIS + O. Parece bobo escrito assim, eu sei. Mas cada "O" é um elo. Um círculo que só significa alguma coisa quando está em conexão com outro. Um "O" sozinho não é nada, é só uma letra parada. Os dois juntos já são uma corrente, mais elo.
Um elo não é uma coisa que você monta uma vez e esquece. Corrente enferruja e elo se desgasta se ninguém olha pra ele de tempos em tempos. Isso vale pra uma parceria de anos e vale pra uma marca também: a estrutura que você construiu ano passado pode já não aguentar a dinâmica de hoje, e ninguém vai te avisar disso num relatório. Alguém precisa continuar olhando.
Isso é o que eu acho que sobra, depois que a tecnologia faz tudo que consegue fazer bem: o vínculo. A confiança que se constrói com o tempo, sem atalho, feita de pessoa para pessoa, cumprindo o que promete, um número pequeno primeiro, e depois um número significativo. Isso não dá pra automatizar, porque não é dado. É coisa que se vive, errando, sentindo o peso de errar, e voltando mesmo assim.
"Não sei se isso é sobre ser melhor que a IA. Acho que nem é essa a disputa. É sobre ser aquilo que ela nunca vai precisar ser, porque não foi feita para ser humana."
Tem dia que eu duvido disso. Que penso se prestar atenção de verdade em cada elo ainda cabe num mundo que recompensa quem escala mais rápido. Não tenho uma resposta bonita pra essa dúvida. Só sei que toda vez que escolhi o atalho, algo ficou mal resolvido lá na frente, e quem pagou por isso não fui só eu.
Estruturar uma marca, pra mim, nunca foi sobre empilhar competência. Foi sempre sobre alguém se importar o suficiente com o resultado pra organizar a bagunça de verdade, e continuar presente depois que a reunião acabou.
O amanhã não vai pertencer a quem processa mais rápido. Vai pertencer a quem fica. E ficar, aqui, quer dizer isso: continuar olhando pro elo depois que todo mundo já foi embora achando que estava tudo resolvido.